13 março, 2007

Dois pesos e duas medidas

A Glass House de Philip Johnson (galardoado em 1979 com o primeiro prémio Pritzker) irá abrir ao público pela primeira vez nos seus 50 anos de história, durante esta primavera. Edificada nos E.U.A. em New Canaan, Connecticut, numa herdade com cerca de 47 hectares, onde igualmente se encontram uma série de edificios desenhados por Philip Johnson, faz parte daquilo que podemos definir como um inventário de Arquitectura, Arte e Paisagismo da segunda metade do século vinte. A abertura oficial acontecerá em 23 de Junho do presente ano.


Paul Rudolph, 1960, Blue Cross/Blue Shield Building, Boston, EUA.


Renzo Piano, proposta, Trans National Place, Boston, EUA.


Por outro lado, em Boston, a ameaça de demolição paira no ar no que diz respeito a um dos ícones da Arquitectura Modernista daquela cidade. O edifício construído em 1960 da autoria do arquitecto Paul Rudolph (outrora aluno de Walter Gropius e reitor da Yale School of Architecture) poderá ser demolido de forma a permitir a inserção urbana de uma torre de 80 andares da autoria de Renzo Piano. O edifício em questão não se encontra propriamente no local onde o arranha-céus irá surgir, no entanto, e segundo Renzo Piano, somente com a criação de uma vasta praça poderá enquadrar o seu projecto na malha urbana, como tal a demolição tornasse imperativa. Sem a presença de uma praça um elemento vertical será demasiado agressivo.


Estas duas situações, são recorrentes nos dias de hoje. De um lado observamos à divinização de edifícios, sobre o pretexto da conservação da memória e de uma cultura arquitectónica, símbolo de uma época, por outro, a ferocidade do mercado mobiliário dita prioridades, estabelece padrões e dita leis sobre o valor intrínseco de outros edifícios. Tudo isto para permitir a construção de projectos cujo único valor acrescentado constitui por vezes a possibilidade de gerar milhões aos seus promotores, que deste modo se socorrem de arquitectos do "starsystem" permitindo assim uma falsa garantia de qualidade e de valor acrescentado. Estas duas realidades são no entanto válidas, e penso que ambas são genuínas da nossa época; aqueles que saudosamente defendem a conservação de um legado e outros que defendem que o futuro não se pode reter com impedimentos do passado. Acima de tudo, a arquitectura não é a arte de criar objectos (que erroneamente denominamos de objecto arquitectónico - esta definição poderemos eventualmente usar na Arte, como a escultura e outras formas de expressão artística), mas sim a disciplina de edificar, construir sujeitando-se às imposições da sociedade, do mercado, e do próprio avanço dos tempos. A função de um edifício é ser habitado, e não tornar-se um objecto kitsch, sendo esta ocasionalmente a única forma de garantir a sua conservação. Redefinir o uso do espaço não dignifica a sua criação, mas torna-o num mero postal ilustrado. Pretendi com isto demonstrar que ambas as posições poderão ser tidas em conta, o que realmente importa é compreender de uma forma séria (pondo o interesse comum em primeiro plano) as virtudes em conservar edifícios que se tornam memória viva, parte da nossa imagética, ou então substitui-los por novas construções, cuja marca no futuro será sempre incerta.

1 comentário:

Joao Lucio disse...

Renzo Piano a querer demolir um edifício do Paul Rudolph????
O homem tem de ter calma e respeitar os clássicos...
Se começasse tudo a mandar abaixo as obras uns dos outros, às tantas não há património...
Tb já pensei em mandar abaixo o mosteiro do jerónimos, porque tá ali a ocupar uma área que até dava jeito para outras coisas, mas depois achei que se calhar era má onda...
Ele que mande o Panteão de Roma abaixo, para fazer ali uma nova piazza navona!